domingo, 21 de maio de 2017

Tecituras



Seria tarde para acreditar no destino?
Um tear a fabricar meus dias, tecendo em noites os fios da minha vida.

Apertando, em nós, meu passado.
Como se, de fato, lá nunca estivesse estado?
Um lugar perdido, território isolado.
E eu sinto, em partes.
Como se não fosse obra de minhas velhas vontades, já tão esquecidas, dissociadas, esquisitas- para mim.
Nasceram outras e mais outras da minha escuridão.
Inacessíveis até tomarem conta.

De que valeriam os planos e os sonhos?
Me perdoem, os Deuses, se for ilusão:
Eu ainda teimarei em carregar a caneta da vida nas mãos.
Que assim seja, cada dia, escrita minha.

domingo, 14 de maio de 2017

Costuras



Pelas madrugadas, amanheceu um novo vício.
Não que seja meu ofício, costurar palavras nas tessituras que me dás.
Texturas em poesia, linhas em busca de sonetos.
É prazer o criar- mesmo com a ânsia pela malha que seguras em teus dedos.
É concreta e direta, a entrega.
Rica e melódica, a fantasia.
Não sei se o traje é de festa ou se estará na pele a autoria.
Sei que, quando fecho meus olhos, escuto tua música.
Já não tem mais tecido que possa abrigar a vontade de sentir.
Quero costura sem molde, pequenos pontos feitos a mão.
Delicadezas das rendeiras, desenhos e curvas para esculpir
A necessidade é incrível. Deito e estás ali.
Com tua biografia escrita em estampas.
Emudecidos, depois de tantas lembranças.
Somos silêncio, onde está a distância?
Bordas-me os cabelos, entrelaçados em teus dedos.
Enlaço-te as pernas, como se a partida fosse logo.
Costura de corpos, cerzidos por tuas mãos tão leves.
Não sei se é breve ou se é tênue o encanto.
No entanto, acordo e continuo sonhando.
Me belisco: estás aí?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Me mudar

Estive pensando em mudar:
trocar de casa,
encontrar novas janelas.
Buscar uma alameda tranquila,
quem sabe até, uma casa de Vila.

Estive pensando em mudar:
fugir da cidade,
voltar para o interior.
Trocar as linhas,
experimentar novas línguas.

Estive pensando em mudar:
sair desse estado
de espírito.
Largar velhos hábitos,
pisar com outros  sapatos.

Estive pensando em mudar:
largar o país,
esse vício,
essa cachaça.
Transformar a letra do meu samba
Variar a melodia, compor em parceria.

Estive pensando em mudar:
descobrir  meus mundos.
Me pensar como um planeta.
Observar meus movimentos,
Te escrever cartografias,
meus mapas afetivos até então em segredo.

Estive pensando em mudar:
beberia mais água, abusaria do filtro solar, o dinheiro todo seria para viajar.
A televisão estaria só desligada, a estante de livros bem visitada.
Menos pacotes, mais cascas.
Quem sabe se eu mudasse, nem que fosse por partes,
passasse a agonia de viver sem fazer parte.

sábado, 18 de março de 2017

ex amiga

 Eu tive uma amiga, faz um tempo. Não sei bem se posso dizer dessa forma, mas na época era assim que nos definíamos. Hoje lembrei dela, enquanto caminhava no parque. Olhei para o banco em que  sentamos juntas, cada uma com seu copo de suco da lancheria. Ali, com seus pés sobre o banco e os braços em volta de seus joelhos, me disse: "Eu o amo, sofro por ele ser assim. Mas não sei dizer não." Aquela lágrima que foi rolando e desenhando sua face delicada e alva doeu profundamente em mim.  Eu não sofria assim, digo, por aquele motivo, no entanto podia imaginar o que era estar presa numa história daquelas. Mesmo assim, não deixei de nutrir carinho por ele.
Engraçado que ela vinha muitas vezes, eu nunca fui à sua casa. Às vezes, quando ela ia embora, eu me sentia extremamente cansada. Exaurida e inundada pelos seus questionamentos e angústias. Aos poucos, suas visitas e mensagens foram diminuindo. Ela queria se afastar dele e afastou-se de mim por projeção.
Eu não sou de cobrar presença, fui deixando rolar... O tempo e a distância são implacáveis, definem nossos horizontes. Assim foi. Eu sinto falta, assim como de outras pessoas que passaram por mim. Tenho curiosidade em saber por quem ela chora ou sorri hoje, porém me sinto livre daquele sofrimento por tabela que estar com ela me trazia.  Espero que tenha sorrido mais do que chorado nesse tempo todo, depois de tudo.

Talvez, continue...

terça-feira, 14 de março de 2017

Lua

Sob essa lua a sombra recai no dia.
Faz da noite, música.
Cordas caladas e macias.
Soam e ecoam lembranças.
Ventania!

Poiesis

Daqueles que veem seus versos como folhas no chão a desenhar
Como trilhas que o vento teima em rabiscar
De ter palavras atraentes, estrelas no céu dos amantes em busca de um luar.
Quem sabe fazer da pele, tela.
Doces cicatrizes, marcas de poiesis
Rir dos seus deslizes.
Toques e olhares:
Que para ser poeta há que sentir, sobretudo amar
As coisas e seus nomes
As palavras e os pronomes
Dar-se as entregas, fugir das intrigas e fluir as partidas.
Ausência e saudade
Temperos do tempo que nos arde
Até matar a sede.
Das noites às  manhãs
Nas peças e roupas
Às vezes, sem.
A poesia não cansa.
Todos os nuances de uma vida que dança.
Brinca feito criança.

Tempo de amor

Você chegou assim de mansinho
E como era para ser buscamos um ninho
Sem nada dizer
Meu peito que era vazio
Conseguiu entender
Que para o amor nascer
O tempo tem que tecer.
Sem pressa, promessas ou planos
Aos meus trinta e poucos anos, me fez renascer.
Hoje não sou mais aquela
Não me perco em quimeras
Não volto para casa depois do alvorecer.
E toda espera é  motivo para pensar em você.