segunda-feira, 26 de março de 2018

outono-me


Outono-me como as árvores despidas,
lembrando, em minha boca, as flores.
Nas doces manhãs, em que meus olhos ainda brilham com teu orvalho,  
Pequenos botões abrem-se para  renovar nossos dias.
Uma fome nos invade.
Aquela loucura boa de querer
e  amar descobrir, na vida, as suas alegrias.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Tentei

O que faz ser assim?
Eu já pergunto e respondo.
Na verdade, eu já sei.
Já tentei .
Impossível dizer que chances não dei.
Assim, se esvai tudo o que criei aqui dentro

Cada sonho, cada expectativa.
Ficam ali  distorcidas.
Agora, seguro o choro e espero,
Como estivesse sozinha num deserto.

Tentei e não foi pouco.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

coisas da vida



Um pensamento voou no silêncio da casa,
suas palavras escoavam
feito o café que perfuma as manhãs.
Não as decifrei, não as segurei, mas sorri.
Num labirinto sem bússola,
meus passos por ai.
Corro atrás do que perdi,
do que me passou e não compreendi.  
Voltar, não posso.
Só sei ir,
desejar
e descobrir as coisas da vida para te mostrar.
Coisas novas, tristes e belas.
Vida alegre e leve.
Que antes da morte existem as horas e os dias, todos para
Inteiramente (só) ser.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Quantos

Quantos choros você  vai engolir?
Quantas vezes você vai fugir?
Quantos prantos você vai limpar, cuidando para maquiagem não borrar?
Quantos vezes vai dizer sim ao invés de não?
Quantos comportamentos você vai sucumbir ao não ser ?
Quantos silêncios você vai deixar de ouvir?
Quantos toques vai se recusar de sentir?
Quantos defeitos você vai assumir como seus?
Uma hora ou outra você sufoca.
O pranto vira mar.
Não vá se afogar.


domingo, 28 de janeiro de 2018

Meu amor

Meu amor é pelo, é poro.
Fala, falo.
Meu amor é linguagem, paisagem.
Olhar, lugar.
Meu amor é aqui ou quando está lá.
Presença, ausência.
Meu amor é entrega, confiança.
Sem pressa, segue.
Meu amor é manhã, acordar devagar.
Noite, música.
Meu amor é mistério, surpresa.
Elogio, papo sério.
Meu amor é rotina, prazer.
Frio na barriga, louca para te ver.
Meu amor é saudade, vontade.
Espera, inspira.
Meu amor é Ilíada, mitologia. 
Prosa, poesia.
Meu amor é desejo mesmo quando não te vejo.
Sonho e pesadelo.  

Medo do meu medo



O medo de ir até a esquina
ou de não chegar até ali.
O medo da bala, do tiro que soa
seco por aqui.
O medo das vidas perdidas pelas balas soltas por aí.
O medo do ladrão.  O medo da polícia.  O medo da política.
O medo de ler nas manchetes o que a gente já vê ou finge que não.
O medo que aprisiona ou que faz viver no eterno (a)pesar.
O medo de andar sozinha
e ser reconhecida na fragilidade de ser mulher.
O medo do assalto, o medo do sequestro, o medo do estupro, o medo de ser invadida.
O medo ao escutar um barulho na porta, o barulho dos passos, o barulho da moto, o barulho da sirene das viaturas.
O medo do que o barulho causa dentro, nos segundos que voam -como horas- até que a respiração possa acontecer.
O medo ao imaginar que no morro a coisa tá pior. O medo ao não conseguir  imaginar onde essa onda irá nos levar. E que, aqui, é  só a ponta desse iceberg.
O medo ao pensar que alguém lucra com esse sofrimento todo. 
O medo de não sentir mais medo
e levar a vida acreditando que isso tudo é normal.
O medo da violência que mora dentro de nós quando o medo vence.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Escada



Já falei da janela,
hoje é a imensa escada que visito:
sussurros, risadas e segredos.

Quem, na ingenuidade da idade, poderia escutar tal 'verdade'?

A criança que fala - e não perdoou- vive, ali, no adulto a repetir. 
Repetindo, acredita.
A culpa é de quem deixa o sofrimento para ser livre?
Santos são os homens, a quem a natureza sempre salva.

Escondida, me recusei a aceitar essa gaiola.
Se a menina que fui não nasceu com asas;
é nas palavras que busco força para voar. 
Hoje, exposta!